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  • Temos cargos políticos a mais em Cabo Verde?

    Por: Euclides Silva

    Não é com um “sim” ou “não” que se responde a esta pergunta — e muito menos com populismo. É preciso análise, comparação e responsabilidade.

    Vamos aos dados, relativamente a número de Deputados:

    Cabo Verde tem cerca de 527 mil habitantes e 72 deputados.

    Comparemos com outros pequenos Estados insulares:

    – Maurícias: ~1,3 milhões | 70 deputados

    – Comores: ~900 mil | 33 deputados

    – Barbados: ~280 mil | 30 deputados

    E com países maiores:

    – Portugal: ~10,3 milhões | 230 deputados

    – Países Baixos: ~17,5 milhões | 150 deputados

    – Brasil: ~215 milhões | 513 deputados

    – Estados Unidos: ~340 milhões | 435 deputados (Câmara)

    A conclusão é clara: a representação per capita em Cabo Verde é das mais elevadas, tanto no Parlamento como nas autarquias.

    Mas atenção: isso não significa que se possa simplesmente cortar deputados. Os nossos círculos eleitorais foram desenhados para garantir equilíbrio entre ilhas e cidadãos. Já passámos por círculos de freguesia, depois municípios, e hoje temos círculos por ilha — com exceção de Santiago.

    Se queremos falar seriamente em reduzir o número de deputados, temos de repensar os círculos eleitorais. A minha proposta?

    Um círculo nacional + um círculo para a diáspora.

    Assim, poderíamos reduzir o número de deputados para metade — sem perder representatividade.

    Porquê metade e não 50?

    Fica para o próximo post.

    Partilha, comenta, discute com respeito. A democracia constrói-se com dados, ideias e coragem.

  • A Inversão Geracional e Disrupção nas Próximas Eleições de Cabo Verde

    Por: Milton Paiva

    Há momentos na história de um povo em que o curso natural das gerações se inverte. Cabo Verde aproxima-se, talvez, de um desses momentos. Nas próximas eleições, o País poderá testemunhar uma viragem simbólica e política: o posicionamento efetivo de uma nova geração, nascidos ou formados nos anos 1970s e 1980s, para um palco incomum e antecipado, disputando os mais altos cargos da República, incluindo as eleições Presidenciais.

    Durante três décadas, essa geração viveu à sombra de uma elite política e diplomática dos anos 1930 e 1960s. Mas o tempo, como a maré, não espera.

    “Tapados” pela geração de 1930 e 1960s, e de combatentes da pátria, nos Governos e na Diplomacia, só lhes resta ocupar espaços onde deveriam estar a posicionar-se a geração antiga, invertendo os papeis e o tempo.

    Uma juventude aparentemente calada, mas irreverente e com coragem. Jovens que não se contentam em aplaudir o passado e querem escrever o futuro. Cresceram num mundo livre, global e digital, onde o poder não se mede apenas por idade ou por currículo, mas pela coragem, ousadia, novação, comunicação, mobilizando e inspirando. E muitos deles já não se revêm no tempo presente, na lentidão das estruturas nem na rigidez dos discursos e das práticas que dominam o País.

    A “inversão geracional” que se desenha é mais do que um apelo á mudança de rostos, é uma revolução silenciosa de ordem de precedência e de mentalidades. Um desafio à lógica da sucessão tradicional, onde os mais velhos “autorizam” os mais novos a sonhar. Os jovens não querem ser apenas ativistas de campanha, comentadores nas redes ou “futuros líderes” num amanhã indefinido. Querem liderar hoje.

    Cabo Verde precisa dessa ousadia. Precisa de candidatos que falem de futuro com a mesma paixão com que os fundadores falaram da independência e da liberdade. Que vejam a Presidência, o Governo e a Diplomacia não como o fim de um percurso político, mas como o início de uma nova etapa nacional.

    O País que exporta talentos e inteligência não pode continuar a importar coragem. Chegou a hora da inversão. Chegou a hora dos jovens deixarem de ser espectadores e assumirem-se protagonistas.

    A geração digital, formada na diáspora e nas ilhas, deve ousar candidatar-se, não apenas a votos, mas a ideias, a causas, a disrupções.

    Cabo Verde precisa de uma nova energia: disruptiva, corajosa e inclusiva.

    Porque o futuro não espera, e a história, quando se atrasa, é sempre reescrita por quem ousou chegar mais cedo.

  • A República com Rosto de Futuro

    Por: Milton Paiva

    Um Dirigente jovem não é apenas uma questão de idade, é um estado de espírito, uma atitude perante o tempo. Representa uma geração que já nasceu global, digital, inquieta e consciente de que o poder, hoje, não se exerce apenas de cima para baixo, mas em rede, com empatia e propósito.

    Um Dirigente jovem é um líder que escuta o ritmo da rua, entende o pulso das ilhas e fala a linguagem dos novos tempos.

    Não tem medo de reformar, de questionar, de abrir as janelas da República para o vento fresco das ideias.

    É educado na transparência e não na tradição do segredo. Prefere o debate aberto à reunião fechada, o diálogo ao decreto, o “nós” ao “eu”.

    Entende que o poder não é privilégio, mas serviço e responsabilidade.Não promete o impossível mas faz com criatividade e coragem.

    Um Dirigente jovem sabe usar a tecnologia como ponte e não como muro. Transforma redes sociais em redes de cidadania. Fala com o agricultor, o estudante, o emigrante e o empresário no mesmo tom de respeito e esperança.Sabe que governar um País arquipelágico é ligar pessoas e sonhos, não apenas ilhas e estradas.Mas o que mais distingue um Dirigente jovem é o sentido de urgência.

    Ele sabe que o tempo da juventude é curto, e que o futuro não espera. Por isso, age. Experimenta. Inova.Não por vaidade, mas por dever com a geração que vem atrás, e com a que confiou nele para abrir caminho.O Dirigente jovem é o símbolo de uma República viva, plural e audaz.

    Um Dirigente que não teme o amanhã, porque acredita que o amanhã é agora.E quando Cabo Verde tiver a coragem de integrar no leme esse espirito, não pela idade, mas pela visão, então, talvez, o arquipélago encontre a sua nova rota: uma Nação em movimento, guiada pela energia do presente e pela esperança de um futuro que já começou.

  • A PERTINÊNCIA DO VOTO OBRIGATÓRIO

    Por: Euclides Silva

    O voto obrigatório é uma realidade em vários países, como o Brasil, a Argentina, a Bélgica, a Austrália, o Peru, o Uruguai e a Bolívia, entre outros. Em muitos outros países, este modelo tem sido objeto de debate, especialmente em contextos de baixa participação eleitoral ou de crescente desinformação política.

    Durante muito tempo, acreditei que as pessoas deveriam ser livres para participar ou não na festa da democracia. Se não encontrassem opções que correspondessem às suas expectativas, poderiam simplesmente abster-se de votar. No entanto, com o passar dos anos e com a experiência política e de terreno adquirida ao longo de mais de 15 anos de militância ativa, sou levado a reconsiderar essa posição.

    O voto obrigatório pode ser uma forma eficaz de combater a banalização e a mercantilização do processo eleitoral. Um país não pode ser governado por um presidente ou por um governo escolhido apenas por 20% da população. Tal cenário compromete a legitimidade democrática e pode gerar instabilidade institucional.

    Se optamos por um regime democrático, então todos devem participar. Todas as vozes e tendências devem estar representadas, e para isso o voto deve ser obrigatório. Esta medida contribui para:

    – Aumentar a representatividade dos eleitos, garantindo que os resultados refletem a vontade da maioria.

    – Reduzir o impacto da compra de votos, já que a obrigatoriedade dificulta a manipulação de pequenos grupos de eleitores.

    – Desmercantilizar as eleições, tornando-as menos vulneráveis a interesses económicos e mais centradas no debate político.

    – Diminuir os custos eleitorais, pois campanhas podem ser mais objetivas e menos dependentes de mobilizações dispendiosas.

    – Promover a educação cívica, ao reforçar o sentido de responsabilidade dos cidadãos perante o destino coletivo.

    Em países como a Bélgica e a Austrália, o voto obrigatório é acompanhado de sanções para quem não votar sem justificação válida — desde multas até restrições no acesso a concursos públicos ou benefícios sociais. Esta abordagem reforça a ideia de que votar não é apenas um direito, mas também um dever cívico.

    Assim, proponho que uma futura reforma do nosso sistema eleitoral considere a implementação do voto obrigatório, com mecanismos claros de justificação e penalização para os incumpridores. A democracia só se fortalece quando todos participam.

  • Milhoes na gaveta por falta de coragem

    Por: Milton Paiva

    Impasses da República: Um Referendo de Iniciativa Cidadã (RICV)?

    Há momentos na história de um País em que é preciso escutar o coração. E Cabo Verde tem um coração grande e expressivo.

    Vivemos uma democracia amadurecida, mas muitas vezes travada por impasses politicos institucionais e pela distância entre eleitos e eleitores. Quando o diálogo político se esgota e o País parece parar em certos aspectos cruciais, é legítimo perguntar: não deveria o cidadão poder intervir diretamente, propor soluções, e até corrigir rumos?

    É aqui que, em diversos Países, entra o mecanismo excepcional do Referendo de Iniciativa Cidadã e Revogatória (RICV), uma ideia simples, mas poderosa: dar aos cabo-verdianos o direito de propor, aprovar ou revogar leis e mandatos, diretamente, dentro dos limites constitucionais e regulamentados.

    Assim, devolver ao Povo soberano o poder de desbloquear impasses politicos entre os seus eleitos.

    O Que Podemos Aprender com o Mundo ?

    Na França, há um movimento crescente pela criação do Référendum d’Initiative Citoyenne (RIC), o referendo de iniciativa cidadã, nascido do clamor dos Gilets Jaunes, o movimento dos coletes amarelos.

    Eles reivindicam que os cidadãos possam:

    Propor leis (RIC legislativo);

    Revogar leis injustas (RIC abrogatório);

    Alterar a Constituição (RIC constitucional);

    E até revogar mandatos de eleitos (RIC revocatório).

    Apesar de ainda não ser lei, essa ideia está a transformar o debate político francês e a inspirar democracias pelo Mundo.

    Enquanto isso, o único mecanismo existente, o Référendum d’Initiative Partagée (RIP), já é uma cedência tímida nessa direção mas exige o apoio de 1/5 dos parlamentares e 10% do eleitorado, um processo tão pesado que nunca chegou a ser usado com sucesso.

    E Cabo Verde?

    Cabo Verde pode, e deve, ambicionar ir mais longe.

    Podemos construir um modelo próprio, equilibrado e moderno, inspirado:

    Na Suíça, pela sua tradição educativa e deliberativa;

    Na América Latina, pela sua coragem participativa e popular.

    Assim nasceria o RICV, Referendo de Iniciativa Cidadã e Revogatória, com três pilares fundamentais:

    a) Iniciativa Popular: cidadãos propõem leis, referendos ou petições diretamente.

    b) Referendo Revogatório: o povo pode revogar mandatos ou leis quando houver perda de confiança pública, com regras claras e limites constitucionais.

    c) Consulta Digital: uso de plataformas seguras, transparentes e auditáveis para recolher assinaturas e votar.

    Porque É Importante ?

    O RICV seria um passo histórico para:

    – Reforçar a soberania popular, aproximando o povo das decisões nacionais;

    – Renovar a confiança nas instituições, mostrando que o poder não é propriedade das elites, mas serviço à comunidade;

    – Dar nova energia à democracia, tornando-a mais viva, moderna e participativa.

    Trata-se de passar de uma democracia “de voto” para uma democracia de participação contínua, onde o cidadão não apenas escolhe, mas também acompanha, propõe e fiscaliza.

    Um Chamado à Ação

    Cabo Verde é um exemplo de estabilidade política em África. Mas estabilidade não deve ser sinónimo de imobilismo.

    Está na hora de aprofundar a democracia e reabrir o diálogo com o povo soberano.

    O Referendo de Iniciativa Cidadã e Revogatória (RICV) não é apenas uma proposta técnica. Levaria a alteração/emenda do artigo 106º da CRCV, em moldes que poderemos aprofundar em outro texto ou forum, havendo interesse.

    É uma afirmação de confiança no povo cabo-verdiano, na sua maturidade política e na sua vontade de construir, com as próprias mãos, o futuro da Nação.

    “Nenhum povo é pequeno quando tem voz”

  • Impacto na economia com o green card

    Por: Milton Paiva

    Cabo Verde perde, a cada mandato, 160 milhões de euros e 900 milhões de impacto na economia com o green card (+): https://e-portaldef.gov.cv/

    Muitos ainda estão convencidos de que o desafio principal do País é a falta de recursos financeiros. Eu não. Um dos problemas principais do nosso tempo é a falta de ousadia e inovação, e pôr pessoas erradas a avaliar soluções certas.

    No fundo, não faltam recursos para a cultura e desporto, ou emergências do Pais, mas falta ousadia para os tirar do papel e meter no campo da prática. A solução já está numa Lei aprovada pelo Parlamento (Lei nº 30/IX/2018, de 23 de abril).

    Cabo Verde encontra-se perante uma oportunidade histórica de reposicionar-se como um destino global de investimento, talento e mobilidade. Mais de 60 Países similares a nõs já o fizeram, inclusive São Tomé e Príncipe. A proposta de parceria com líderes mundiais em programas de residência e cidadania por investimento, oferece ao país uma ferramenta estratégica para atrair capital estrangeiro direto, criar emprego e acelerar o crescimento sustentável, sem riscos financeiros para o Estado.

    O Programa Green Card Visa (+), reformulado, permitiria que Cabo Verde beneficie de um fluxo constante de investimento privado, sobretudo no setor imobiliário, estimando-se uma injeção direta de mais de 160 milhões de euros nos primeiros cinco anos, com um impacto global de cerca de 900 milhões de euros na economia nacional. Trata-se de capital fresco que reforçará as infraestruturas, dinamizará o turismo, modernizará os transportes e criará novas oportunidades para empreendedores e trabalhadores cabo-verdianos.

    Mais do que números, este programa posiciona Cabo Verde como um hub de inovação, talento e qualidade de vida no Atlântico, reforçando a sua localização estratégica entre África, Europa e Américas. A experiência internacional demonstra que países como Malta, Portugal, Granada e Montenegro transformaram os seus programas em motores de desenvolvimento económico, gerando receitas, visibilidade e novas parcerias globais.

    A estrutura proposta garante transparência, simplicidade e atratividade, com um processo rápido e seguro, auditado por especialistas internacionais. O modelo é ganha-ganha: o Governo não assume custos, e os operadores especializados apenas são remunerados se o programa tiver sucesso. Assim, o risco é inexistente, mas o potencial de benefício é extraordinário.

    Adotar este programa significaria abrir Cabo Verde ao mundo de forma inteligente, seletiva e competitiva, reforçando a confiança internacional no País. É um passo visionário que pode colocar Cabo Verde entre os destinos mais desejados para viver, investir e criar.

    Trata-se de transformar o potencial em realidade: tornar Cabo Verde uma primeira escolha para investidores e talentos globais, impulsionando o desenvolvimento económico, a sustentabilidade e o futuro das próximas gerações.

    Este artigo é inspirado em dados reais e estudos comprovados, assim como em apresentações oficiais ao Estado de Cabo Verde (gaveta), com o titulo “Como tornar Cabo Verde na primeira escolha para Talento e Investidores na Região”. Urge um debate nacional, competente e especializado sobre o tema.

    Livros e Publicações Académicas (Oxford, Cambridge, Harvard)

    – Kälin, C. H., & Kochenov, D. (2019). Citizenship by Investment. Cambridge University Press.

    – Surak, K. (2021). Millionaire Mobility and the Sale of Citizenship. Journal of Ethnic and Migration Studies, 47(1), 166–189.

    – Dzankic, J. (2019). The Global Market for Investor Citizenship. Palgrave Macmillan.

    -Shachar, A. (2017). Selecting by Merit: The Brave New World of Stratified Mobility. In Migration and Mobility in the Modern Age. Oxford University Press.

    – Surak, K. (2023). The Golden Passport: Global Mobility for Millionaires. Harvard University Press.

  • Mecanismo de Reponsabilização por Impasses (MRI)

    Por: Milton Paiva

    Impasses da República: Um novo modelo relacional na CRCV ?

    No dia 16 de outubro de 2024, o Presidente da República, José Maria Neves, promulgou o decreto-lei que cria a Embaixada da República de Cabo Verde no Qatar. Um passo diplomático importante, mas que, 372 dias depois, permanece sem embaixador nomeado.

    Trata-se de uma representação inteiramente financiada pelos Emirados Árabes Unidos (OE2025), e que permitiria a Cabo Verde projetar-se numa das regiões mais ricas e estrategicamente relevantes do Mundo.

    Contudo, não é um caso isolado. As embaixadas em Portugal, Bélgica/UE, Reino Unido e Japão. Em breve também Estados Unidos e Nigéria/CEDEAO viverão o mesmo impasse, revelando um padrão de bloqueio político que mina a credibilidade e a eficácia da diplomacia cabo-verdiana.

    Diplomacia travada, Nação suspensa

    Um antigo Presidente da República relatou-me, pessoalmente, que nos anos 1990, quando ainda Ministro, havia acordado um compacto de financiamento monumental com um país do Golfo, potencialmente transformador para Cabo Verde. Contudo, ainda no voo de regresso, foi demitido por motivos de disputa política interna, e o projeto nunca se concretizou. Este espisódio histórico é um símbolo da vulnerabilidade da nossa política externa à instabilidade interna, um padrão que se repete e nos custa, diariamente, oportunidades de desenvolvimento.

    Um Povo de Mediadores

    Cabo Verde é um País de homens e mulheres com extraordinárias competências relacionais e diplomáticas. Já fomos mediadores de conflitos africanos, e somos reconhecidos pelo nosso talento natural para criar pontes entre povos, ideologias e geografias. Num Mundo de tensões globais, essa é uma vantagem comparativa que poderíamos mobilizar para atrair investimento, fortalecer parcerias e projetar influência.

    Era da Inteligência Artificial e da mediação racional

    Na era da inteligência artificial, os instrumentos para apoiar a decisão e a mediação estão ao alcance de todos. Perguntei ao ChatGPT quem poderia resolver impasses de alto nível entre órgãos de soberania cabo-verdianos, e a resposta foi emblemática:

    “Um diplomata, dirigente ou personalidade cuidadosamente selecionado pode atuar como facilitador neutro, ajudando o PM e o PR a avançarem em diálogo produtivo e pacífico, promovendo a estabilidade e o progresso de Cabo Verde.”

    Reformar a Constituição para evitar o silêncio

    A experiência dos últimos anos mostra que não basta confiar na “cultura constitucional” para resolver impasses entre instituições. Talvez seja tempo de introduzir mecanismos constitucionais (CRCV) e coercivos que imponham prazos e consequências pela inação. Um Pequeno País Insular não se pode dar ao luxo de perder meses, ou anos, à espera de decisões políticas que tardam em chegar.

    O custo do impasse

    Fica o desafio aos economistas e gestores públicos: quanto custa ao País cada dia desse tipo de indecisão? Quantas oportunidades se perdem? Quantas carreiras diplomáticas, empresariais e civis ficam suspensas?

    E, sobretudo, quanto custa às expetativas nacionais viver sob o signo de impasses politicos?

  • Um Novo Modelo de Regionalização para Cabo Verde: Reconstruir o Equilíbrio Nacional

    Por: Milton Paiva

    Na semana em que anualmente refletimos e debatemos sobre o “estado da justiça” no País, o meu comentário deste ano é sobre um tipo de justiça que nem sempre é lembrado: a justiça territorial.

    A “Justiça territorial” seria o princípio que busca garantir uma distribuição equilibrada dos recursos, oportunidades e serviços públicos entre diferentes regiões de um País, de forma a corrigir desigualdades históricas e promover o desenvolvimento harmonioso do território nacional.

    Cabo Verde está a chegar a uma encruzilhada decisiva. O debate sobre a regionalização, tantas vezes adiado, precisa de ser retomado com coragem, lucidez e sentido de futuro. O modelo rejeitado pelo Parlamento em 2019 — “uma ilha, uma região” — revelou-se insuficiente e, em certos casos, redundante. Uma analise detalhada e comparada da proposta sugere que repetir estruturas administrativas em ilhas que já possuem um único município poderia levar simplesmente a multiplicar a burocracia, sem aproximar o poder das pessoas e nem resolver os desequilíbrios territoriais.

    O País precisa agora de um modelo funcional, equilibrado e inovador, que respeite a diversidade do arquipélago, valorize as suas afinidades históricas e económicas, e fortaleça a coesão nacional. É tempo de pensar numa regionalização de sentido estratégico, não meramente simbólica.

    1. Regionalizar para DesenvolverA regionalização não é uma questão de mapa; é uma questão de desenvolvimento.

    Significa aproximar o Estado das comunidades, libertar as ilhas do excesso de centralismo, e criar centros regionais de decisão capazes de planear, executar e avaliar políticas públicas adaptadas à realidade local. Só assim se reduz o fosso entre Santiago, São Vicente e Sal, e o resto do País, entre o litoral e o interior, entre a ilha que cresce e a que fica para trás.

    2. Evitar Redundâncias, Ganhar EficiênciaO novo modelo deve evitar a duplicação de estruturas.

    Onde município e ilha coincidem, não parece fazer sentido criar novos níveis administrativos apenas para cumprir uma ideia de regionalização formal. A prioridade deve ser dar poderes reais às Regiões, com competências claras em desenvolvimento económico, planeamento territorial, ambiente, turismo, formação profissional e cooperação intermunicipal. As Regiões devem ser motores de iniciativa, não apenas câmaras de representação.

    3. Duas ou Três Regiões: Coerência e Identidade

    Dois modelos se apresentam como base de reflexão:Um modelo de 2 Regiões: Sotavento e Barlavento, retomando a divisão histórica e natural do arquipélago. Simples, simbólico e coerente.Um modelo Alternativo de 3 Regiões:a) Região Norte: Santo Antão, São Vicente e São Nicolau (e Santa Luzia)b) Região Centro: Sal, Boa Vista e Maioc) Região Sul: Santiago, Fogo e Brava (e Maio?)Esta segunda opção reforça a lógica de proximidade e complementaridade económica, criando equilíbrios internos e promovendo sinergias entre ilhas vizinhas com vocações distintas, desde agrícola, turística, portuária, industrial, cultural, mas interdependentes.

    4. Mais Autonomia, Menos Centralismo

    Regionalizar é dar autonomia com responsabilidade. É permitir que as regiões decidam sobre as suas prioridades, e sejam responsabilizadas pelos resultados. É descentralizar os recursos, o investimento público, a formação e a inovação. É dar espaço à criatividade regional, à gestão partilhada e ao desenvolvimento sustentável.

    5. Uma Nova Visão de Cabo Verde

    Cabo Verde não pode continuar preso ao peso do centralismo histórico. O País precisa de um Estado moderno, policêntrico e colaborativo, onde cada ilha tenha voz e cada região tenha força. A regionalização deve ser o instrumento que transforma assimetrias em oportunidades, que cria novos polos de decisão, e que faz do arquipélago um verdadeiro laboratório de democracia e desenvolvimento.

    Mais do que dividir o território, trata-se de multiplicar as possibilidades de progresso. A regionalização é, acima de tudo, um projeto de Nação, para unir melhor o que o mar separou.

  • VALORES, DESPORTO E ESPÍRITO REPUBLICANO: DO “HOMEM NOVO” À COPA DO MUNDO 2026

    Noites profundas e de pesquisas de alta dimensão…

    Façamos, todavia, uma breve PAUSA, como sucedeu recentemente!

    O PAICV e os seus pequenos “griots” de serviço, repetidores de uma propaganda política acéfala e barata, NÃO PERCEBEM a mudança de fundo ocorrida no DESPORTO cabo-verdiano e a razão das actuais conquistas, nomeadamente o extraordinário apuramento da selecção cabo-verdiana de futebol à Copa do Mundo de 2026.

    Não se trata, ó fala-baratos de província, de pôr mais uns centavos ao serviço da modalidade desportiva Y ou Z.

    Não é isso. Longe disso, meus senhores.

    A coisa tem a ver, pelo contrário, com a Filosofia da História e com a própria Natureza do Regime Político.

    No tempo da ditadura do partido único o Desporto era visto, nestas ilhas, como um mero apêndice do regime.

    Como um item qualquer da ideologia do partido-guia e da sua vanguarda, visando a construção do “homem novo” sonhado pelos totalitarismos de matriz marxista-leninista.

    Isso levou ao CONTROLO ESTATAL do desporto e à sua degradação, fenómeno reconhecido, de resto, nos próprios documentos oficiais publicados pelo regime de então.

    É esse o legado burocrático vergonhoso do PAICV.

    Tudo isso sofreu uma viragem de 180 graus após a mudança exemplar de 1991 e a aprovação da Constituição de 1992.

    Uma mudança estruturante e que dignificou definitivamente o desporto cabo-verdiano e o libertou dos seus avatares colectivistas e ministeriais, nas suas várias modalidades, como sucedia anteriormente.

    O Desporto deixou de estar atrelado ao partido e à sua ideologia totalitária.

    E passou a ser, como acontece nas Sociedades Civilizadas, uma MANIFESTAÇÃO GENUÍNA DA LIBERDADE HUMANA.

    O desporto é, hoje, uma forma de emulação, de criatividade e excelência humana, em que os atletas, já sem as peias do Estado controlador, revelam ao mundo os seus dotes e, livremente, buscam a glória e encantam os seus seguidores, sem esquecer o necessário fair-play!

    É ISSO, esse espírito fundamental, que transformou, para muito melhor, o desporto cabo-verdiano, lançando-o numa dinâmica que enriquece toda a nação e faz de Cabo Verde um país admirável aos olhos da comunidade internacional.

    É um imenso e incontornável SOFT POWER.

    Da próxima vez, o sr. Ministro dos Desportos tem de articular garbosamente este discurso e mostrar aos nossos “griots” tardios do totalitarismo O QUE REALMENTE ACONTECEU NO DESPORTO CABO-VERDIANO DE 1991 A ESTA PARTE.

    Parafraseando o célebre James Carville, It’s about VALUES, stupids!

    As mudanças virtuosas produzem simplesmente resultados virtuosos.

    A partir de 1991, acabou também a velha e vergonhosa CISÃO entre os cabo-verdianos residentes no território insular de Cabo Verde e os residentes na nossa vasta diáspora, que o antigo regime, complexado q.b., apelidava pejorativamente de “estrangeirados”.

    Os EMIGRANTES passaram a ser cidadãos de pleno direito, ganharam o direito de voto e foram sobretudo tratados com DIGNIDADE.

    Hoje a nação cabo-verdiana é uma só, onde quer que os seus filhos se encontrem.

    Não importa a geografia. O orgulho nacional voltou.

    E, com ele, o verdadeiro sentimento de pertença, de cidadania e de CABO-VERDIANIDADE.

    Temos uma cultura vibrante. Que integra, agrega, e multiplica.

    E fomos então buscar os nossos melhores em Lisboa, nas ruas laboriosas da América, em Paris, na Irlanda, Turquia e em toda a parte, unidos, fraternalmente, sob a mesmíssima BANDEIRA DA LIBERDADE.

    E assim vamos agora, com mérito e brilhantismo, à Copa do Mundo, que antes só víamos, como um sonho impossível, no ecrã trémulo da TVEC.

    Cabo Verde é hoje um espaço de dignidade, liberdade & esperança.

    Somos um povo LIVRE que acredita nas virtudes da iniciativa enquanto motor da prosperidade comum.

    /Canta, meu irmão/

    /Que a Liberdade é hino e o Homem a certeza/.

  • ESTATUTO EDITORIAL

    O Contraponto.cv é um espaço digital de análise crítica, opinião independente e pensamento alternativo, dedicado à reflexão sobre Cabo Verde e o seu futuro.
    O blog nasce com a missão de estimular o debate público qualificado, desafiar as ideias estabelecidas e propor novos caminhos de desenvolvimento político, social e económico para o País.

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